Na madrugada uma chuva fina começa a cair lá fora, Rubens cai no sono. Em meio a sonhos estranhos envoltos em um lençol branco, ele acorda. O apartamento continua vazio. Em um rompante levanta e vai até a geladeira e bebe água, um gole atrás do outro. Depressa. O Sol não demoraria a chegar e um novo dia batia a porta. Ele senta em uma cadeira e fita demoradamente a cesta de pão vazia. O dia vai raiando. Ele veste um casaco e sai, desce as escadas devagar e quando chega lá embaixo se dá conta de que esqueceu as chaves do portão do prédio. Volta para o apartamento, e ao chegar lá em cima desiste de sair. Não havia motivos para sair, eram seis da manhã. Não haveria nada aberto, a não ser os botecos da cidade com um bando de bêbados atazanando. Contenta-se com algumas bolachas escondidas no fundo do armário. Estavam velhas. Também pudera, elas eram do…
Conto
A Casa no Morro, de Olivia Maia
Tem um blog que estou sempre lendo, o Forsit. A blogueira é uma guria cujo nome é lindo, é Olivia. E eu adoro esse nome. Olivia Maia, nome bom ela já tem. E ela escreve muito bem, escreve tão bem que já tem dois livros publicados, Desumano e Operação P-2. Mas não foi por isso que resolvi comentar sobre a moça. É que ela publicou nas últimas semanas os retalhos de seu conto para o Le Monde diplomatique Brasil (no suplemento Palavra). Contos em parte sempre dão a sensação de quero mais. É uma leitura até o continue. E esperar o final sempre me deixa aflita, ainda mais se for como A Casa no Morro, título do tal conto. O que saber antes de ler? Que é um conto policial. Como ela, eu gosto do gênero. E para ler tem que acessar a parte 1, a parte 2, a parte 3, a parte 4 e o gran finale! Para quem…
andanças [2]
Olha ao redor e não vê ninguém. Não tem viva alma a lhe esperar. E lá dentro ele sabia que era tudo o que queria. Caminha até a cozinha. Abre a geladeira. Pega uma garrafa de vinho branco, serve uma taça e bebe tudo em um gole como se aquela fosse a última porção de vinho do mundo. Dirige-se para o sofá liga o rádio em alguma estação qualquer e deita com o olhar perdido na noite que se desvendava pela janela aberta. Nenhum som, nem mesmo da música a tocar ou dos carros na avenida em frente a seu prédio lhe chama a atenção. Desliga o rádio.
andanças [1]
Rubens caminha todas as manhãs nas mesmas alamedas de Porto Alegre. Em busca de algo que nem mesmo ele sabe. O que importa é o deslocamento. Sobe e desce ladeiras, lombas. Segue reto, dobra à direita, depois à esquerda. Sempre cantarolando uma música. Uma música indecifrável, inventada de pronto, ali mesmo, naqueles instantes de andanças. Para sempre na mesma esquina. Entra no prédio, sobe o elevador até o quarto andar. Abre porta, fecha porta. Acende a luz.
Um Crime Perfeito
Sempre achei que era bom demais. Miltão era muito bonzinho com aquela gente. Eu nunca entendi direito porque toda aquela palhaçada. Um dinheirão só pra construir o maldito condomínio. Sem contar o trabalho que deu pra enfiar aqueles papeizinhos na porta de cada família. Como se chama mesmo? Pros…pos…prospecto! E depois, usar aquelas roupas pinicando o tempo todo e ainda ter de ser simpático com todo mundo que passava. Mas o mais difícil mesmo foi vender as casas. Ainda bem que Miltão era formado, ele tinha a manha de convencer as pessoas. Acho que eles ensinam isso na faculdade. Mas o que sempre me deixou muito intrigado era não saber de onde saiu o dinheiro pra construir todas aquelas mansões. O pessoal dizia que Miltão era um filhinho de papai revoltado que queria provocar a família. Eu nunca tive coragem de perguntar. O mais importante é que as trinta casas foram ocupadas. Tivemos ainda que aguentar um mês na tensão…





