O cenário por trás da belíssima história de Cormac Mccarthy é o mundo alguns anos depois de uma tragédia, depois de seu fim. Não há lugar em que a morte não esteja presente, seja em milhares de corpos espalhados pelas cidades totalmente destruídas ou pela natureza, que perdeu sua cartela de cores para o cinza. A escuridão total durante a noite e o dia coberto por nuvens de fumaça e cinzas. Não se houve mais o canto dos pássaros, o barulho que persiste é ínfimo. E os poucos homens que sobreviveram lutam para continuar vivos e muitos deles tornaram-se canibais. Mas em nenhum momento do livro descobrimos como isso aconteceu.
Como se passaram muitos anos desde a tragédia, o que restava de alimentos nas lojas e casas destruídas já tinha acabado. Esse cenário desolador, que mesmo aterrorizante, não chega a compor um ponto de extrema importância para o que o autor pretende com seu romance. Mas fazer o que se eu gosto tanto desse cenário nas histórias de ficção.
Mccarthy desenvolve uma narrativa sobre dois sobreviventes, o pai e seu filho, que nem chegou a conhecer o mundo como ele era antes da tragédia. Sem nomes, os personagens seguem pela estrada que dá nome ao livro em busca de algo que nem mesmo eles sabem o que seria. Apenas querem fugir da desolação e do frio que vem chegando, caminham em direção à costa. São poucos os diálogos entre os dois, não há muito o que falar nessa situação. São dois seres em farrapos, com rostos cobertos de panos para fugir da fuligem que preenche o ar e o torna quase irrespirável. O pai mantém uma bala no revólver que carrega para, em último caso, dar cabo do filho (a própria esposa optou pela morte, e o diálogo que a antecede seu “desaparecimento”, recordado pelo marido, é um dos grandes momentos de A estrada) ou protegê-lo em alguma situação extrema que se apresente.
A narrativa, escrita em 2006, toda é angustiante, as situações com que ambos se deparam ao longo da viagem são aterradoras, afinal de contas, os homens que acabaram se transformando em canibais estão por aí, vagando em bandos, caçando solitários sobreviventes esfomeados e fundando uma nova sociedade, baseada na violência (não muito diferente da atual). E toda a jornada desses dois, pai e filho, é o que pode mantê-los unidos e garantir a sobrevivência de ambos. O livro é muito mais do que a história do que nos aguarda no temido fim dos tempos, é a história da profunda relação entre pai e filho, amadurecimento e sobre esperança, “cada um o mundo inteiro do outro” (sem dúvida a melhor frase do livro).
Uma obra única, instigante, profunda e muito, mas muito boa e com um final aterrador, que me fez chorar litros.Uma obra premiada (ganhou o Prêmio Pulitzer em 2007, não é pra qualquer um não) e de uma originalidade que poucos conseguem. O livro ainda teve um outro mérito, que não tem nada a ver com o conteúdo literário, a lembrança de meu pai, que partiu desta vida em 2000.
Recomendo a leitura, mas cuidado, se sua sensibilidade é assim, digamos, muito alta, prepare-se com caixas e mais caixas de lencinhos de papel. Mas não se engane, não um melodrama grudento e pobre. Pelo contrário, é um romance requintado, profundo e extremamente complexo. E logo logo estará no cinema mais próximo da sua casa a adaptação cinematográfica com Viggo Mortensen no papel do pai. Essa promete.
[…] This post was mentioned on Twitter by Daniela, Dani Soares. Dani Soares said: #trecosetrapos A Estrada (Cormac Mccarthy) http://bit.ly/6QGR10 […]
O filme ficou muito bom. Fora os problemas básicos da troca de mídia, acho – mas o Viggo está excelente. É como se McCarthy tivesse escrito o livro pensando nele como o pai O_o
Estou tentando achar um link bom para baixar,mas não dúvido que tenha ficado bom mesmo.
🙂
Estou tentando achar um link bom para baixar,mas não dúvido que tenha ficado bom mesmo. 🙂
Olá, devo gravar um podcast no próximo fds sobre o filme The Road e outros com temática parecida,se lhe interessar entre em contato conosco…
Angélica – Guarujá – SP
@Angélica Hellish, seja bem vinda ao trecos&trapos.
Muito obrigada pelo comentário e pelo convite.
Teria de saber como funcionaria o podcast, pois nunca participei de um.
Abraços.
O livro é impressionante, mais agoniante do que “O ensaio sobre a cegueira”. Eu não me sentia assim desde que joguei FallOut 3.
[…] de ter ficado completamente arrasada com o livro A Estrada (Cormac McCarthy), resolvi partir para a versão cinematográfica. E não me arrependo. John Hillcoat conseguiu […]
[…] a lista completa dos livros lidos em 2010 (os links são para as resenhas): 01. A Estrada (Cormac McCarthy) 07.01.2010 02. Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis) 16.01.2010 03. Quincas Borba […]
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