
No meio da pressa, do barulho do motor e das janelas embaçadas, algumas vezes é possível encontrar poesia. Não aquela dos livros, mas a que alguém deixa escrita às pressas, rabiscada no encosto da cadeira, como quem não aguenta guardar tudo só para si. Um ato que é considerado vandalismo, mas um vandalismo poético. Uma confissão, um sussurro ou um grito em meio ao caos da vida urbana.
Na última semana encontrei duas frases, em diferentes viagens de ônibus, que só pude notar porque as viagens eram menos caóticas do que o normal. Só assim pude dar atenção antes de voltar para o meu mundinho de livro na mão e fone nos ouvidos:
“Não sei por que me rasgo pelos outros
mesmo sabendo que me costurar dói do mesmo jeito depois.”
E em outro ônibus:
“E agora se inicia a pequena vida do sobrevivente da catástrofe do amor… […]
Já não amo
Agora posso atuar no mundo […]
Já não estou louca.”
Fiquei pensando que essas escritas são quase bilhetes anônimos deixados para estranhos. Confissões jogadas no espaço público, mas que carregam a intimidade de alguém. Uma literatura clandestina, feita de dor, resistência e sobrevivência.
Talvez ninguém mais repare, ou quem sabe se apaguem com o tempo. Talvez alguém pago para a limpeza amaldiçoe em silêncio os autores do vandalismo. Mas por alguns instantes, ali entre uma parada e outra, o ônibus deixou de ser apenas deslocamento: virou também livro, mural e confidência.







Adoro reparar em escritos nos lugares, das fotos especialmente o primeiro pelo tema costura. Meus favoritos são mensagens e artes de banheiro de bar (coloquei uns no humilde @banheiropixado no insta).
Eu adoro as mensagens de banheiro! Vou visitar o insta. Adorei a ideia.
Essa do rasgo me pegou de jeito, viu… Vou ficar pensando nisso até o fim do dia! Sei lá, eu sou a favor de intervenções como essas sempre, há uns anos tinha um projeto em Belo Horizonte onde a própria prefeitura disponibilizava textos plastificados para a gente ler, sinto tanta falta disso…