
Mood: 🧐 Pensive
🎵 Burning Down the House - Talking Heads
Eu estou “participando” do HRCYED 2.0 (Hardest Reading Callege You Ever Do 2.0), sem muita pretensão de conseguir concluir o desafio (quem sabe no 3.0). Um dos prompts de leitura é ler um lançamento em até 60 dias após a data de publicação, para cada mês do desafio. Para o mês de julho eu escolhi ler um livro de ensaios curtinho. Aliás, essa é minha estratégia para esse prompt, tendo em vista que são 12 livros no total, junto com uma infinidade de outras leituras e de um doutorado…
Acabei de ler I Want to Burn This Place Down, da Maris Kreizman, lançado pela Ecco Press, selo da HarperCollins, em Julho de 2025. O livro se encaixa se encaixa na minha estratégia: upoucas páginas, leitura rápida para caber na TBR1 do mês.
Expectativas x Realidade
Embora o título sugira uma rebeldia explosiva, o tom encontrado é mais ponderado; um questionamento que não grita por atenção. Uma brasa quente que incomoda pouco quem deveria ser incomodado, mas legitima quem pensa parecido.
Quando comecei a ler I Want to Burn This Place Down, da Maris Kreizman, confesso que esperava fogo. Não só no título, mas nas ideias. Queria ensaios que chegassem para derrubar tudo, cuspir verdades e deixar cinzas no lugar. O tipo de escrita que queima.
Mas o que encontrei foi algo diferente: uma coleção de ensaios mais contidos, mas nem por isso menos potentes. Em vez de incêndios, brasa constante. Em vez de gritos, observações agudas ditas em tom calmo. E, honestamente? Funcionou.
Não é um livro que tenta agradar. Mas também não quer brigar com todo mundo. Fica ali, no meio do caminho entre o sarcasmo e a vulnerabilidade. E talvez seja aí que mora sua força.
Escrita
Os três primeiros ensaios me pegaram de jeito. Textos diretos, bem escritos, pessoais sem perder a crítica. Mas todo o conjunto se sustenta. Mesmo os ensaios finais, apesar de menos envolventes, continuam afiados e relevantes.
Gostei bastante da escrita: rápida, fluida, crítica. O estilo da Kreizman é leve, quase como se fosse uma conversa. Entretanto uma conversa que faz você parar para pensar. A leveza que engana: você acha que está só lendo sobre cultura pop, literatura ou saúde pública… até perceber que está pensando sobre o mundo em que vive (e sobre o seu próprio lugar nele).
Tons e Temas
Ao longo dos ensaios, Kreizman combina crítica cultural com um olhar afiado sobre temas políticos e sociais, sem abrir mão do pessoal. Ela escreve sobre viver com diabetes tipo 1, ansiedade, e as limitações impostas por um sistema de saúde falho, que trata pacientes crônicos com burocracia e descaso. Essa crítica, quando atravessada por suas próprias experiências, ganha densidade e impacto: não é teoria, é vivência.
Há também reflexões sobre o mercado editorial e a cultura do livro, áreas que ela conhece bem por dentro. O que poderia ser apenas uma coletânea de queixas se transforma, graças ao seu humor seco e à honestidade vulnerável, em uma escrita que incomoda sem ser panfletária, e até emociona (mas sem cair no sentimentalismo). Esse equilíbrio entre afeto e indignação torna a leitura muito envolvente.
Simbolismo incendiário
O título I Want to Burn This Place Down remete a uma cena intensa da série Mad Men, corretamente descrita por Maris Kreizman em um dos ensaios. Após uma reunião marcada por comentários sexistas e ofensivos, na qual Joan é reduzida a um objeto sexual em pleno ambiente profissional, Joan e Peggy compartilham um momento de fúria e frustração no elevador. É ali, longe dos olhares dos outros, que Joan desabafa: “I want to burn this place down.” O comentário não é uma ameaça literal, mas um grito de revolta contida contra anos de desrespeito e desvalorização. A frase se tornou emblemática por sintetizar, em poucas palavras, a revolução silenciosa que mulheres como Joan e Peggy travam diariamente no mundo corporativo.

Kreizman se apropria dessa faísca simbólica para nomear sua coletânea, e embora seus textos nem sempre entreguem o incêndio prometido, há ali o mesmo desejo latente de mudar as estruturas, ainda que pela crítica sutil e pelo humor ácido.
Notas para um incêndio contido
I Want to Burn This Place Down talvez não tenha acendido o incêndio que o título promete. No entanto entregou algo mais sutil e, em certos momentos, até corajoso: uma chama crítica que segue queimando em silêncio. Maris Kreizman escreve com ironia, afeto e até uma certa raiva, embora contida. Ela quer incendiar, mas no fim, entrega uma ruptura menos barulhenta, mas ainda assim real.
Mas, sendo honesta, eu teria gostado muito mais se o livro tivesse sido realmente incendiário. Às vezes, senti falta de um pouco mais de risco, de desconforto, de um enfrentamento mais direto às estruturas que ela, por vezes, apenas contorna. Ao mesmo tempo, seria ingênuo esperar uma fúria radical de uma autora branca, com uma trajetória privilegiada, ainda que ela reconheça isso com honestidade ao longo dos ensaios.
Como leitura do HRCYED 2.0, ele cumpriu bem seu papel: um lançamento recente, curto, provocativo o suficiente, e fácil de encaixar na rotina caótica de leituras e pesquisas. Pode não ser o livro mais revolucionário da estante, mas certamente é consciente. E isso, às vezes, já é um começo.

Uma coleção de ensaios de estreia de Maris Kreizman. Um relato introspectivo e contundente das experiências de vida que levaram esta ex-“boa democrata” ainda mais para a esquerda política.
- Acredito que quase todo mundo saiba, mas não custa lembrar: TBR é a sigla em inglês para “To Be Read”, ou seja, aquela pilha infinita de livros que a gente jura que vai ler algum dia. ↩︎





