
Eu participo de um clube do livro com alguns amigos. Nesse bimestre o livro escolhido foi Suicidas, romance de estreia de Raphael Montes. Não tenho muito interesse pelo gênero, mas resolvi dar uma chance, já que tanta gente fala muito bem do autor. A minha impressão é de que o autor parece tentar fazer de seu livro muitas coisas ao mesmo tempo: um thriller psicológico, um jogo de detetive, uma crítica social, um experimento literário. Mas, na minha leitura, acaba tropeçando nas próprias pretensões e falha miseravelmente nelas todas.
O livro apresenta uma proposta até instigante: um grupo de jovens de classe média alta se reúne para um pacto suicida. Os mistérios e reviravoltas da história são revelados por meio de gravações e relatórios policiais. A premissa rapidamente se perde em cenas que apelam mais para o choque pelo choque. Elas não constroem nenhuma profundidade psicológica ou uma crítica consistente. O gore é apenas um recurso de impacto vazio. Parece que o autor quer gritar “olhem como sou ousado”. Mas não convence, não tem sustância.
Os personagens são rasos, com a profundidade emocional de um pires, e estereotipados ao extremo. As mulheres são objetificadas. Os personagens gordos são ridicularizados. Há homofobia e misoginia. Tudo isso parece ter como objetivo parecer um “retrato cru da juventude”. Na prática, somente reforça preconceitos sem qualquer reflexão crítica. É um festival de violências que se acumula página após página, sem elaboração, sem contraponto, sem propósito.
Os diálogos, por sua vez, não ajudam a salvar o conjunto, pelo contrário, escancaram ainda mais a artificialidade da narrativa. Soam ensaiados, mecânicos, sem qualquer naturalidade. As falas dos personagens não soam verdadeiras. É como se todos estivessem encenando versões caricatas de si em um palco mal montado. São interações que mais me afastaram do que me aproximaram da trama.
A trama, apesar do ritmo rápido, é previsível. As supostas reviravoltas já podem ser antecipadas bem antes de acontecerem. E o final, ah, o final… A assinatura da carta que fecha a narrativa é de uma breguice tão forçada. Parece saída de um roteiro descartado de novela. É como se todo o esforço de parecer inteligente e sombrio ruísse em um toque de melodrama barato. Veja bem, parecer, porque não foi em nenhum momento.
Li até o fim, porque sou teimosa. Mas não recomendo. E espero que meus amigos do clube de leitura não fiquem chateados comigo.








Oi! Vim aqui conhecer seu blog, muito obrigada pelo comentário lá no Camilando. Eu amei demais eu blog, o mood dele aconchegante! Vou tirar um tempinho pra ler com calma os outros posts, pois já gostei daqui. 🙂
Oiii. Que alegria receber um comentário teu! Seja muito bem-vinda ❤️
eu morro de preguiça do choque pelo choque. não tenho lido taaaanta coisa assim, mas quando leio, sempre me pego pensando em como construir uma narrativa coesa e que faz sentido é o que mais me pega… uma das tristezas é que percebi que não gosto mais tanto assim de YA, porque as últimas coisas que eu li têm sido muito simplistas. ai, ai.
adorei que você faz parte de um clube de leitura!! às vezes me dá vontade, porque é gostoso poder discutir com outras pessoas o que a gente lê. porém, meu foco é ler o que falta ler na minha estante kkkk
beijo, dani!
Eu adoro participar do clube porque ele é bimestral, daí dá bastante tempo pra ler pra quem tem uma rotina mais corrida e ainda consigo ler os encalhados da minha estante.
Beijos!
Eu amo resenhas negativas de livros, não é muito comum ver dessas por aí. Dá até uma vontade de ler também, só pra ver acontecer igual você falou kkkkkk. Não conheço o livro, nem o autor, nem tenho nenhum interesse pelo gênero. Mas deu vontade de pesquisar sobre.
Acho que ainda não comentei por aqui, só estive lendo nos últimos dias. Acompanhando de longe, mas adorei conhecer seu blog.
Oi. Obrigada! Eu adoro o teu blog. Que honra ver que tu leu algo que escrevi 🙂
Eu não sei porque, mas me sinto muito mais compelida a escrever (sei lá, parece que tenho mais argumentos) quando não gosto de algo. Horrível. hahahaha Adoro.
Terminei o livro há poucos dias e fui ler algumas críticas depois. Tem muita opinião quanto a trama do livro em si, sobre o enredo, personagens etc. Muita gente falando do desconforto com as cenas chocantes e pouca gente falando sobre o desconforto da narrativa. Como por exemplo a misoginia, o desprezo pelas personagens do sexo feminino, as colocando como fúteis, interesseiras e superficiais.
Quero ler outros livros dele pra observar se é um padrão do autor ou se era mera expressão do personagem. Se for mesmo do Montes, quero dar um desconto pois, escreveu esse ainda jovem.
Mas ao mesmo tempo, nos próximos livros, espero uma justiça quanto a esse. E se não ocorrer ficarei decepcionada por notar que mesmo com a existência desses atravessamentos, o pensamento dele não evoluiu.
No final do livro me pareceu que ele queria terminar logo e deixou muito superficial a motivação da participação dos personagens na roleta russa. A alusão na última página da ficção com não ficção também achei brega. Pareceu que ele (autor) queria dizer que era “fodao”, e me deu um pouco de vergonha alheia.