
Na Páscoa deste ano, fui viver uma experiência que parece acontecer fora do tempo: o Festival Morrostock. Fui tão tomada pela experiência que quase não tirei fotos. E acho que isso já diz muito sobre o que foi o Morrostock pra mim: um mergulho total no presente.
Já consolidado no cenário da música alternativa no Rio Grande do Sul, o Morrostock é mais que um festival, é um portal. Durante alguns dias, uma comunidade se forma no meio do mato. As pessoas são conectadas pela música, pela natureza e por uma vibe. Essa vibe lembra, com todas as devidas proporções e tropicalizações, o espírito de Woodstock.
O festival mescla nomes conhecidos da cena gaúcha com artistas independentes da América do Sul. Além dos shows, há oficinas, atividades, acampamento, comida boa e um cuidado com o meio ambiente que se sente em cada detalhe: banheiro seco, bioconstrução, respeito pelo entorno. Um universo paralelo.

Fui com a Cibstrada, excursão já tradicional entre os festivaleiros da região (com eles também fui ao Psicodália em 2019). A viagem foi tranquila e, como o ônibus tinha espaço de sobra, consegui levar muita coisa, inclusive meu novo fogareiro de acampamento, que foi uma das melhores compras dos últimos tempos. Amo acampar, e poder cozinhar minhas próprias refeições tornou tudo mais confortável (e econômico).
O lugar não é muito grande, o que torna tudo mais íntimo. Foi um feriadão cheio de experiências maravilhosas. Passei frio na barraca (que é para verão, super ventilada). Tomei banho de rio gelado. Fiz uma trilha de quase 8 km até uma cachoeira que, além de linda, tinha a água mais fria em que já entrei na vida. A sensação era de renascimento.

Os shows foram divididos em três palcos:
- Palco do Lago, à beira da água, com apresentações intimistas durante o dia;
- Palco Pacal, menor, com shows no início da noite e DJs que embalaram as madrugadas;
- Palco Claro Pachamama, o principal, com gramado perfeito para deitar e curtir os shows que iam do final da tarde até 1h30 da manhã. A organização foi impecável: enquanto um palco recebia o público, o outro era preparado. Sempre tinha algo acontecendo.
Não assisti a todos os shows, afinal o setlist estava maravilhosamente imenso. Alguns porque preferi outras atividades durante o dia, outros porque dormi cedo para aproveitar o festival com mais energia. No fim das contas, foi uma escolha consciente: viver a experiência do acampamento tanto quanto a da música.

Quinta-feira: a chegada e os primeiros sons
Chegamos à noite. Vi os primeiros shows no palco principal. Perdi o da Flor ET (Porto Alegre) porque estava exausta. Acabei indo dormir na barraca. Mas no final do show acordei e ainda consegui ouvir o finalzinho. Afinal, o espaço era pequeno. Onde montei a barraca era perto o suficiente do palco principal para ouvir todos os shows que aconteciam ali. Os ensaios também foram muito bacanas. Dois momentos marcaram essa noite:
- Guaviraty Porã (Santa Maria), coral de crianças indígenas guarani: em conexão com a terra e os ancestrais a aldeia Guarani, Guaviraty Porã abre os caminhos do festival. Um espetáculo emocionante.
- Ana Muniz (Porto Alegre): voz potente, letras sensíveis, presença poética. Uma linda descoberta.
Sexta-feira: minha noite favorita
A sexta foi a noite. Uma verdadeira celebração da música latina.
- Dafne Usorach (Argentina), no palco Pacal, me hipnotizou: ela constrói as músicas ao vivo, camada por camada. Incrível.
- Produto Nacional (Porto Alegre), no palco principal: banda clássica de reggae. Não é muito minha praia. Mas curti.
- Kumbiaracha (Uruguai), no palco principal: cumbia com mulheres e dissidências. Uma explosão de energia e alegria. Dancei como se meu corpo fosse mola. Que delícia. Comprei até a camiseta.
- Cuatro Pesos de Propina (Uruguai): uma das poucas bandas que eu conhecia do setlist do festival e esperava ansiosa. Pulei, cantei, suei. Ganhei o setlist da banda e colei na parede de casa. Vai ganhar moldura!
Perdi o show do Júlio Reny 😢 no palco do lago porque estava na trilha. A vida é feita de escolhas.

Sábado: vento, sopros e psicodelia
Mais um dia repleto de sons marcantes:
- La Ventolera (Uruguai): banda de candombe com muito sopro e energia lá no alto.
- No Rest (Porto Alegre), no palco Pacal: adoro. Banda do criador e organizador do festival Show pesadão.
- Lucas Hanke & O Cromatismo de Sensações: psicodelia pura. Delírio bom. Banda do outro organizador do festival.
- Cachorro Grande: um clássico, mas confesso que já não me emociona tanto quanto na adolescência. Talvez o rock branco, masculino e desleixado tenha mesmo perdido o brilho pra mim. Achei um show bem ok, bom, mas nada de mais. Parecia que o vocalista Beto Bruno queria estar em outro lugar.
Domingo: meu aniversário e um presente espiritual
No domingo, dia 20, acordei com a leveza de estar viva. Pela manhã, participei de uma oficina com microdose de cogumelo e fui ao show encontro de Loma Pereira e Zelito (Porto Alegre), no palco Lago. Voz lindíssima, repertório de resistência, músicas sobre mulheres, negritude, terra. Eu chorei. Foi um momento profundo de conexão. Cheguei em um lugar de paz lindíssimo.
Mais tarde:
- Vitor Ramil (Pelotas): frio, voz, violão, poesia. Tudo combinando com a estética do frio desse titã da música do RS. Maravilhoso. Como pode um cara e seu violão preencher todo o palco com a sua voz e suas letras?
- Pájaros Kiltros (Chile), no palco Pacal: o sul do sul. Lá da patagônia chilena, lindos, intensos. Gostei tanto de ter conhecido que queria ter comprado o vinil, mas acabou antes.
- Clarissa Ferreira (Porto Alegre): não vi, mas ouvi inteirinho enquanto cozinhava o jantar. Isso também é festival.
- Bate Sopra (Porto Alegre): outra orquestra de sopros que me arrebatou. Fanfarra. Não conhecia, mas com certeza marcou.
Segunda-feira: despedida
Desmontei a barraca com o coração apertado. Às 16h, o show de encerramento com Carlinhos Carneiro (25 anos de Bidê ou Balde) fechou com chave de ouro. Diferente da sensação com Cachorro Grande, essa banda da minha adolescência ainda me diz muito. Carlinhos desceu do palco, cantou no meio da galera. Foi catártico. Um fim inesquecível.
Voltei zero arrependida por ter poucas fotos. Quando o rolê é bom de verdade, o celular até some da mão.

Muito difícil escolher o show favorito. Então fiz um top 5 dos melhores shows do festival, na minha humilde opinião:
- Empatados em primeiríssimo lugar estão Kumbiaracha e Cuatro Pesos de Propina
- Dafne Usorach
- Pájaros Kiltros
- La Ventolera
- O encerramento mágico do Carlinhos Carneiro
O Morrostock me deu mais do que música: me deu pausa, presença, reencontro. Me lembrou que é possível viver de outros jeitos, ainda que por poucos dias. Um universo paralelo que pulsa resistência, arte e afeto no coração do mato.
Já quero o próximo.






Que lindo! Não conhecia esse festival. Bom saber!
Esse festival é muito legal. eu curto muito a ideia de festival de imersão.
fiquei com uma invejinha gostosa, porque parece ter sido muito bom!!!! o último festival ao qual eu fui foi o lollapalooza, nunca fui pra acampar, assim — deve ser uma experiência muito doida. eu acampava bastante com meus pais, quando era mais nova.
me pareceu divertidíssimo!! é muito bom quando a gente consegue se sentir grata por ter vivido algo, né? <3
Eu adoro festivais de imersão, essa coisa de ir pra um lugar isolado e viver aquela experiência (que é muito mais do que musical) por um certo número de dias, longe do resto. E tem vários pelo Brasil. Como eu curto acampar, pra mim é super de boa. Mas quem não curte, deve ser um pouco complicado. Mas vale pela experiência, sempre.