Cotidiano

A Casa

Passeando pelas ruas de Porto Alegre, as mesmas ruas de sempre. Vento no rosto, conversas gostosas, Gasômetro, Guaí­ba (o lago), pôr-do-sol, vermelho. Subindo a ladeira e chegando no casarão em reforma. Aguarda ansiosa que a porta se abra. Multidão de faces desconhecidas, olhares cúmplices. A porta finalmente abre. Um novo mundo aguarda. Escuro corredor, a multidão a segue.

Chega na sala escura, de tijolos à mostra, lampião aceso, cadeiras ao redor e uma pessoa, uma cadeira, no centro. Sentada, olhar fixo. É Bernarda Alba, reconhece de primeira. Procura um lugar aconchegante na arena negra com portas e janelas brancas, abertas. Contraste. Olha ao redor, presta atenção em cada tijolo, em cada madeira, em cada lampião, e em Bernarda, em seu olhar, fixo, sempre, com uma bengala opressora nas mãos. Todos sentados. Bernarda ainda ali, com o olhar fixo.

Os primeiros acordes começam a soar. E ela ali, com o olhar fixo. Quatro saí­das, quatro fantasmas. Não, são cinco, cinco fantasmas. Elas surgem como fantasmas de si mesmas. Adentram a sala escura ao som do mais melancólico violão espanhol. Cruzam-se, não se olham. E Bernarda ali. Sentada, olhar fixo. Param. Todas. A música soa mais forte, mais no fundo da alma de cada um. De cada uma. Do teto descem negras vestes. Pendem na frente de seus fantasmas. É o luto. Pegam os vestidos, e revelam uma cruz. Uma cruz para cada fantasma. As meninas fantasmas deixam o branco pra traz. Agora estão negras, negras vestes. Bernarda, em seu primeiro gesto levanta e dá os primeiros passos. Desafia, com seu sapateado àquelas meninas. As janelas são fechadas, lacradas. É o luto.

Cada uma daquelas meninas fantasmas com seus medos, anseios e feminilidades reprimidas pelo luto de Bernarda. Suas vontades, das mais infantis às mais lascivas foram proibidas. Desejos presos nos corpos alvos. Como elas: presas na casa. Um espetáculo acontece frente aos olhos de todos. Dança, paixão, melancolia e os acordes espanhóis. Bernarda vigia, pune, cada uma das meninas fantasmas estão sob o olhar fixo de Bernarda, mesmo quando ela não está na sala. Uma delas se deixa entregar ao desespero e à paixão. Abre as janelas outrora lacradas, deixa entrar um homem, o homem. Entrega-se. Todos perplexos. Bernarda vê. Reprime.

Somos todos convidados a seguir, pelo corredor escuro, vendo os martírios, os carrascos, os penitentes nas mentes labirínticas dessas meninas mulheres fantasmas. Forte, sangrento, furioso, enegrecido pela dor de mais uma perda. Foi assim que Garcí­a Lorca nos fez ver a dor da guerra, da ditadura, do enclausuramento.

Luz, aplausos, agradecimentos. Termina um espetáculo. A Casa – dança flamenca-teatro. Prorrogado por mais uma semana. Garcí­a Lorca revisitado pelo sentimento e pela força do flamenco. Vale muito a pena.

Anarca, feminista, vegana, cat lady, bookworm, roller derby, hiperbólica, entusiasta das plantas e constante aprendiz. Rainha de paus, professora de história, amante de histórias. Meu peito é de sal de fruta fervendo num copo d'água. 🌈✊Ⓥ👩🏻‍🏫👩🏻‍💻📚🧙‍♀️🎨📿🥾🏕️ 🐈 🐈 🐈 🐈 🐈 🐈

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Vica
31 de julho de 2007 9:55 am

Se quiseres responder o desafio, sinta-se à vontade. Beijos.

cintia
31 de julho de 2007 11:11 am

(…)
pausa pra uma respirada.

perdi o ar!

Ana
Ana
31 de julho de 2007 1:03 pm

Nossa Dani, me senti dentro de cena, após ter lido sua narrativa com tanto sentimento…bjokas

João
João
31 de julho de 2007 4:57 pm

eu ainda acho que os geógrafos não sabem nada e o Guaíba é um rio, mas tudo bem, ninguém me ouve mesmo…

vou atualizar, olha depois.

bju!

lya
lya
31 de julho de 2007 10:23 pm

masé de verdade mesmo? (:

João
João
1 de agosto de 2007 2:43 am

tá lá a resposta ao meme que tu me passou….

bju grande!

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