
Tem que ser bem pensada, bem planejada. Para onde ir depois de tudo? O que levar. Deixar o quê? A lei diz que tem que dividir. Eu não quero. Só quero meus livros, discos e filmes. Mais nada. O resto é lembrança em forma de cozinha, máquina de lavar roupa suja. Não pode voltar para os braços da mãe, é desonroso. É descumprir promessa feita. Acaba pensando que casar é mais fácil que descasar. Pra casar basta o sonho, o amor. Pra descasar só ódio não basta. Na verdade, é melhor que não exista tal sentimento, torna tudo mais difícil.
A facilidade já não é parte da vida desde muito tempo. Agora as responsabilidades existem para além da turma do teatro ou da escola. Emprego que paga pouco, faculdade que exige muito. Lamentação tem período certo para acontecer. Depois tem que encubar, deixar guardado o sentimento e seguir em frente. Mesmo que seja sem lenço e sem documento. Construir vida nova não é fácil. Mas quero a dificuldade. Quero fazer tudo de novo, mas desta vez sozinha.
Não chora, assim choro também. E vai doer, porque já não tem mais lágrimas. Vai doer dor física. Porque a dor no coração, ou na alma (como melhor lhe prover) ainda está aqui, bem forte. Parece que não vai cessar. Se ainda quem chorasse fosse ele, mas não aguento ver mãe chorando. Da um nó na garganta. Vai dar tudo certo. Não vai acontecer nada de ruim, confia em mim. Amanhã já terei saído de lá, daquela casa, daquela vida.
O destino é incerto. Mas até gosto disso, dá sensação de que pode ser melhor. Sem ressentimentos, é só o que eu quero. Deixar de dividir sem ressentimentos. Me dá um abraço. Quando tiver pouso certo te dou meu endereço.




