
Ao longo a última semana de novembro, mergulhei em um desafio artístico de colagem. Foi muito intenso. Dias da semana, trabalho, tempo restrito. O desafio foi uma proposta da Juliana D’Andrea, dentro do curso Corta Y Cola e consistia em criar uma colagem para cada dia da semana. Pela manhã recebíamos no grupo do desafio a palavra do dia e uma breve reflexão. A ideia era criar uma colagem para aquela palavra. No final do dia o grupo ficava cheio de registros das colagens de todos os participantes, com uma pequena frase ou parágrafo de reflexão sobre o processo criativo e as escolhas feitas durante a criação. Consegui produzir ao todo sete colagens e foi muito positivo. Busquei conectar todas elas. Primeiro, através das cores que escolhi nas primeiras colagens que fiz. Depois, optei por colocar nelas papel rasgado, papel vazado, bolinhas feitas com furador, para buscar coerência, continuidade.
Além disso, peguei um caderno de discos que tenho há uns dois anos e estava sem uso, para ser um caderno exclusivo de colagens. Também me coloquei um desafio extra de tentar fazer todos os dias uma colagem manual, para aprender, criar e usar os materiais que eu tenho em casa. Aprender a lidar com a limitação do que tenho. Afinal de contas, no digital, a internet é o nosso acervo. E sabendo procurar, ele é infinito.
O primeiro dia foi com a palavra estrutura. Nesse dia, eu estava em casa e foi um processo gostoso de reconexão, de experimentação. Acabei fazendo duas colagens. O que guiou a minha criação foi pensar a estrutura como forma, mas também como construção. Comecei focada em buscar imagens de prédios antigos, que acho muito bonitos. E a colagem foi nascendo com a cor azul, sem intenção. Daí, as formas ajudaram a me dar a sensação de algo estruturado e que, ao mesmo tempo, desafia a estrutura. Nesse primeiro dia eu consegui fazer duas colagens. Como estava de folga do trabalho, pude me dedicar ao projeto.


Já no segundo dia, eu fiz uma colagem digital no Canva, bem simples, durante o intervalo do trabalho. Era mais para garantir que eu conseguiria fazer o desafio, porque eu queria fazer algo manual quando chegasse em casa. A palavra do segundo dia foi movimento, e a colagem digital foi feita utilizando vários tipos diferentes de papel escaneado, seguindo as tonalidades de azul na paleta de cores das colagens do dia anterior, e a imagem de uma contorcionista em preto e branco como foco central. Quando cheguei em casa do trabalho, fui direto procurar outra imagem, que seria o centro de interesse dessa colagem manual, e foi bem difícil encontrar. E também bem difícil criar, após usar o cérebro até a exaustão para dar aula durante o dia todo. Abri todas as minhas pastas, folheei muitas revistas, e acabei escolhendo uma imagem que recortei há mais de uma década. Pés. Um movimento de andar, seguir em frente, dançar, seguir na travessia, nos levar ao encontro do diferente, do novo, poder levar o nosso olhar para qualquer lugar. Essa foi a reflexão que fiz. Busquei usar algum elemento que ligasse essa colagem às duas primeiras, e coloquei detalhes dentro da paleta de azul, e elegi as bolinhas/confetes como algo que gostaria de ver presente em todas as colagens do desafio.


No terceiro dia, a palavra foi transformação. E também tive dificuldades com ela. Dessa vez, a dificuldade foi de me desprender da ideia inicial. Eu tinha uma ideia na cabeça e fui buscando imagens que se encaixassem nela. Mas não encontrava nada. A limitação do acervo atacando novamente. Precisei desapegar, aceitar os imprevistos e abrir meu olhar para as imagens disponíveis. Busquei fazer a colagem conversar com as outras por conta das cores e de elementos que se repetem. Escolhi mais uma vez os tons de azul, mesclei com verde, repeti as bolinhas e gostei do efeito vazado da folha de revista que usei o furador para obter as bolinhas. A imagem central é de duas estudantes para evocar a transformação que a educação traz, mas também a importância de estudar para florescer ideias.

Na quinta-feira, penúltimo dia do desafio, a palavra foi conexão, e foi uma palavra muito especial. Eu busquei a conexão com as imagens, também busquei refletir sobre as conexões entre natureza e criação humana. Quis focar nas formas e nos contrastes, tentando encontrar harmonia, exercício que me levou a essa criação. A imagem de uma menina tailandesa no meio de um campo de flores me puxava a tempos, sempre que eu folhava a Nat Geo de onde a recortei. Repeti alguns padrões e arrisquei usando posca vermelha e um marcador dourado para adicionar detalhes que fizeram toda a diferença. Uma das minhas criações favoritas.

E finalmente, o último dia. A palavra foi florescer, e para mim, para florescer, é preciso presença. O meu florescer na arte precisa de disciplina, assim como a pequena ginasta, tirada de uma revista Manchete de décadas atrás, que precisa treinar muito para chegar no nível olímpico. É um ciclo, como na natureza. A florada vem a cada novo ciclo, e é apenas o começo. Depois há frutos, que alimentam e inspiram para que novas sementes germinem e o processo se inicie mais uma vez. Adicionei mais cores, repeti o vazado do furador, repeti o azul em detalhes, e usei mais uma vez o marcador dourado e a posca vermelha.

A semana foi muito corrida. Criar exige tempo e nem sempre isso combina com o trabalho formal de 40 horas semanais. Mas foi muito gratificante, principalmente por poder trocar com outras pessoas que também participaram do desafio e com o acompanhamento da Ju, maravilhosa. O encerramento foi um encontro ao vivo pelo Meet para conversar, trocar experiências e reflexões sobre o processo criativo. Nesse encontro, fechamos o desafio com 5 perguntas para responder. Um exercício de escrita sobre nossa semana.
1. Como você trabalha com estrutura?
A minha resposta para essa pergunta foi pensando a estrutura como algo que dá suporte para que todas as outras coisas possam acontecer. E esse suporte, assim como nos prédios japoneses que precisam lidar com terremotos, ele não pode ser estático, ele não pode ser fixo, ele tem que ser maleável, ele tem que se mover com as nossas vivências, aprendizados, experiências, para que realmente forneça uma estrutura para o nosso processo criativo, sem nos boicotar ou nos limitar.
2. Se o movimento tivesse uma cor no seu processo, qual seria?
No meu processo, o movimento tem as cores da natureza, principalmente o verde e o marrom. O verde numa tonalidade menos saturada, assim como o marrom. Os tons terrosos, para mim, indicam o movimento. Ele acontece para mim na terra, a terra e a natureza é que nos dão possibilidade de traçar caminhos que moldam as nossas travessias.
3. O que transformação está pedindo de você agora?
E eu não poderia responder essa pergunta de outro jeito que não disciplina, treinamento, porque para que eu consiga criar, eu preciso dedicar um tempo do meu dia para isso. E só dedicando um tempo do meu dia, somente tendo a disciplina para tentar criar, nem que seja um pouquinho por dia, explorando os diversos hobbies e as diversas técnicas que eu gosto, que eu tenho apreço, é que eu vou conseguir transformar a minha arte.
4. Que conexões você busca criar através da sua arte?
Eu quero criar conexões com o meu eu interior, principalmente. Porque no mundo moderno, no mundo capitalista, a gente passa muito tempo conectado, mas essa conexão é superficial. Essa conexão é com o algoritmo, ela não é orgânica e ela te impede, ou tenta te impedir, de pensar, de criar, de ter um pensamento próprio. E eu quero, através da arte, poder resgatar, com outras atividades, o eu, a pessoa que eu sou, a Daniela, adolescente, que queria ser artista e que alimentava esse sonho, mesmo sem condições financeiras. É isso que eu quero criar.
5. O que significa florescer no seu fazer artístico?
Para mim, significa brotar coisas que vão desde o político ao sentimento, à expressão individual. Tem uma música de uma peça de teatro aqui do Rio Grande do Sul, que tem um verso que eu gosto muito e que combina com essa pergunta, que diz assim: “me corte que nasço sempre”. E para mim isso é o fazer artístico, de ter a criação como algo que vai me fazer colocar no mundo os meus pensamentos, os meus sentimentos, a minha expressão, e vai fortalecer, vai adubar o coletivo. Pensando politicamente, pensando socialmente, culturalmente, a arte tem esse poder de fazer coletivos florescerem.














