
Voltar a fazer colagens me reconectou com a adolescente esquisita, criativa e sonhadora que fui, e que, no fundo, eu ainda sou. Sempre tive o sonho de viver de arte e sempre fui esquisita, tinha toda a skin para ser artista.
Na adolescência eu fazia colagens em todo lugar, nas capas dos cadernos, fichários, na porta do quarto. Passava horas recortando figuras das revistas (minha mãe dizia que eu era uma rata fazendo ninho, de tanto papel recortado. Os restinhos pareciam mesmo ninho de rato. Hey, rato tem ninho?1).
Depois fui fazer teatro, uma das coisas mais maravilhosas que já fiz na vida, fiz escola de teatro. Lá a gente atuava, criava os cenários, costurava os figurinos, maquiava. Era tudo nós mesmos que fazíamos, a escola era de um dos grupos de teatro mais importantes do Brasil, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, um dos coletivos de teatro mais engajados politicamente da América Latina. Participar dessa escola foi mais do que aprender a atuar. Foi viver o fazer artístico em sua forma mais coletiva, política e visceral. Cada montagem era construída com as mãos de todo mundo. A gente improvisava com o que tinha, aprendia a confiar no grupo, a escutar o outro, a pensar no processo como algo mais importante do que o resultado final. Foi ali que aprendi que arte é encontro, é corpo presente, é colaboração, é resistência.
Essa vivência moldou profundamente meu olhar para o que significa criar. Até hoje, quando monto uma colagem sozinha no meu computador, sinto que essa Daniela do teatro ainda tá ali, remendando pedaços, criando com o que tem, misturando linguagens, chamando outras vozes para dentro do trabalho. O teatro me ensinou que arte não se faz isolada, mesmo quando parece.
Queria entrar na faculdade de Artes Visuais da UFRGS, era meu grande desejo. Mas vindo de uma família pobre, resolvi tentar algo que me garantisse uma estabilidade financeira e eu pudesse me sustentar com condições melhores do que aquela que tive na infância. Além disso, existia uma prova de desenho de observação dificílima, que eu não tinha o preparo e nem a confiança para fazer. E muito menos dinheiro para fazer o cursinho preparatório. Consegui então entrar no curso de História. Não era o curso de Artes Visuais, mas era algo que eu sempre gostei. Eu estava dividida entre História e Letras (tanto que depois que me formei em história tentei o curso de Letras e cursei até o sexto semestre).
Conforme a vida adulta foi chegando, eu fui abandonando aos poucos aquilo que eu era. A vida adulta vem com o combo: trabalhe para ter dinheiro e não tenha tempo para aproveitar o dinheiro dinheiro que tem fazendo aquilo que gosta. Parei de desenhar, parei de recortar, colagens ficaram na memória, larguei o teatro e fui me dedicando à vida acadêmica, depois ao trabalho. Abandonei até o blog.
E sempre querendo voltar. Porque essa Daniela que ficou para trás é a Daniela que eu sou de verdade. A Daniela meio punk, meio hippie, que ama arte, desenha, recorta e cola, coloca a mão na massa, faz a própria agenda (sim, eu fiz isso com uns 14 ou 15 anos, porque não tinha dinheiro para comprar a agenda legal com folhas coloridas que eu queria). Que não tem medo de se sujar, pintar, mexer com papel e quer sempre aprender novas técnicas para se expressar. Meu contato com a expressão artística não deixou de existir, claro. Eu sempre visito museus, a Bienal, a arte ainda é parte importante da minha vida. Literatura, cinema e música são as expressões que mais consumo, mas as artes visuais fazem muita falta.
Até que durante a pandemia eu pensei em me reaproximar do trabalho visual e fiz umas tentativas com colagem digital, usando o Canva. Mas voltar a fazer algo parece mais difícil do que fazer pela primeira vez. Por que será?

Meu Instagram começou a ficar repleto de artistas que comecei a seguir. Até que um dia, navegando pelas águas do YouTube eu me deparei com um perfil de uma colagista. A Flannzela. Comecei a devorar os vídeos dela, e de outras colagistas que começaram a aparecer nos vídeos relacionados. Iniciei o ano de 2025 fazendo uma colagem no meu planner inspirada por elas.
Inspirada por essas artistas e tomada por uma vontade crescente de criar, resolvi organizar todo o material que eu tenho guardado em caixas. Aquele que venho acumulando ao longo de duas décadas com a esperança de um dia retornar aos velhos e maravilhosos hábitos artísticos. Fiz uma oficina no Domestika de colagem artística e fui descobrindo novas técnicas digitais. Então comecei a explorar esse universo com mais regularidade.
Descobri o Februllage e resolvi arriscar. Foi uma experiência maravilhosa e desafiadora. Durante 28 dias, fiz uma colagem por dia, sem falhar. Usei só colagem digital, mas em uma delas resolvi colocar a mão na massa de novo e revirar meus recortes antigos (sim, ainda guardo os de quando era adolescente!). Fiz uma colagem manual e foi incrível. A colagem manual me deu algo que a digital não oferece: fricção, textura, imprevisibilidade. Não dá para dar Ctrl+Z no papel, e isso me fez prestar mais atenção em cada escolha, cada encaixe. Foi um resgate da materialidade, da lentidão, do erro bonito. O processo todo do Februllage me ensinou muito sobre disciplina criativa, sobre aceitar o que dá para fazer no tempo que se tem, e também sobre confiar na própria voz visual.

Agora estou fazendo o curso da Juliana D’Andrea (Juupiter) e sempre que posso eu brinco com a colagem digital, sem compromisso. Seja fazendo colagens para ilustrar os posts do blog ou para aprender alguma técnica.
Toda essa retomada já gerou alguns frutos. Pequenos, alguém pode dizer: vendi minha criação pela primeira vez, para uma amiga, mas vendi. E isso era inimaginável até alguns meses atrás. Participei também de uma feirinha em evento anarquista. A feirinha anarquista foi pequena, simples, mas para mim teve um significado enorme. Era um evento de 1º de maio, e eu estava ali com minhas colagens impressas em papel bonito, cheia de nervosismo e expectativa. Não era só uma feira, era minha primeira vez expondo meu trabalho ao vivo, para pessoas de verdade, fora da tela.

Eu me senti fora do lugar por uns minutos, tímida, meio sem saber o que dizer. Mas logo começaram a chegar algumas pessoas curiosas, perguntando sobre as colagens, folheando os trabalhos, sorrindo, fazendo comentários gentis. Eu não vendi nenhum dos meus trabalhos naquele dia. Mas mesmo assim considerei o evento um sucesso. O intuito ali era participar, o público não era o público que compraria algo. Mas coloquei minha criação no mundo, me expus pela primeira vez fora do Instagram. Voltei para casa com o coração cheio. Ganhei algo maior do que dinheiro: a certeza de que o que eu faço comunica. E que tem lugar para isso no mundo. Mesmo que seja em cantinhos alternativos, em eventos autônomos, entre panfletos, zines e sonhos de transformação social.
Mas o mais impressionante e emocionante foi o convite para participar de uma exposição de colagens em Bogotá, pelo Movimiento clandestino de collage, Artistas do México, Cuba, Venezuela, Brasil, Argentina e Colômbia, a LATINOAMÉRICA USAda. Fiz uma colagem a partir do tema da exposição, foi um corre para conseguir enviar, mas no final deu tudo certo e ela ficou exposta lá, pendurada numa parede de verdade, ao lado de artistas que conheci e aprendi a admirar profundamente. Ver minha arte ocupar um espaço coletivo, físico, fora da internet (e fora do Brasil!) foi uma sensação indescritível. Agora, a exposição voltou em nova edição, em outro espaço de Bogotá: ¡Vuelve LATINOAMÉRICA USAda!

Voltar a colar, recortar, inventar imagens e histórias visuais foi mais do que um resgate criativo, foi um reencontro comigo mesma. Não sei onde isso vai dar, e nem quero saber. O importante é que agora tem cola nos meus dedos, pixels nos meus olhos e o coração um pouco mais cheio de coragem para seguir criando. Que venham mais colagens, mais papel, mais caos colorido. E que essa Daniela siga viva, bagunceira e artista.

- Sim, rato tem ninho. Descobri depois. E o meu era feito de papel e sonho. ↩︎







eu AMEI suas colagens. dá pra ver o quanto você refinou o seu processo desde a pandemia!
eu fazia colagens antigamente, tanto as virtuais quanto as físicas, com papel e tesoura — ainda tenho um montão de revistas pra recortar aqui, inclusive. deu vontade de voltar a mexer com a tesoura e a cola!
beijoca, dani!
Colagem é uma forma muito boa de se expressar artisticamente, é recontar, ressignificar. Eu adoro. E tenho estudado bastante pra poder fazer disso algo que preencha cada vez mais os meus dias.
Beijos!