Livros e a biblioteca

Qorpo Santo, três comédias

Qorpo Santo (José Joaquim de Campos Leão, Triunfo, 19 de abril 1829 – Porto Alegre, 1 de maio de 1883) foi um dramaturgo gaúcho esquecido por muito tempo, que teve sua importância recuperada apenas na segunda metade do século XX. Ele nos deixou como herança uma extensa obra teatral, todas as suas peças estão em domínio público, disponíveis para download gratuito na página do Domínio Público. Criou sua própria gramática, de onde se pode compreender a peculiar grafia de seu nome. Foi professor, diagnosticado como louco e interditado judicialmente a pedido da própria família, escrevia compulsivamente.

Recentemente li um livrinho (o diminutivo refere-se apenas ao tamanho físico do livro, e não a sua qualidade) editado pela Mercado Aberto com três de suas comédias. A obra editada como As Relações Naturias: três comédias, contém as peças As Relações Naturais, Mateus e Mateusa e Eu sou vida, eu não sou morte. Textos curtíssimos escritos em Maio de 1866 que brincam o tempo todo com as palavras e com a gramática. Além disso, Qorpo Santo escreve textos teatrais que estão carregados de suas teses sociais, críticas e deboches aos costumes e instituições de sua época. Curiosamente, as peças As Relações Naturais, Mateus e Mateusa e Eu Sou Vida, Eu Não Sou Morte foram montadas pela primeira vez em 1966 em Porto Alegre.

As Relações Naturais

Essa peça trata de desejos reprimidos, contém um erotismo exacerbado para a época e é considerado praticamente um manifesto crítico sobre religiosidade, sexualidade e a família. O texto mostra um lar transformado em bordel e relações familiares incestuosas e perversas. Uma crítica ácida a instituição da família. Expõe desejos reprimidos pela sociedade e a intimidade familiar de forma cômica e cruel.

Mateus e Mateusa

Apresenta a relação de amor e ódio de um casal de idosos e suas filhas. Os personagens se agridem verbal e fisicamente e discutem a respeito do casamento e da vida em comum. Mais uma de suas críticas à família, esta peça está entre suas peças mais conhecidas. Escrita em único dia (12/05/1866) narra uma história cômica sobre as relações familiares que deixam o leitor/espectador refletindo sobre o sentido dessas relações.

Eu sou vida, eu não sou morte

Essa comédia possui um tom de tragédia. Trata-se de um triângulo amoroso em que estão envolvidos Linda e Lindo, e o Rapaz. O marido mata o rival (Lindo) em nome da honra, orgulho e integridade. Uma ironia aos valores da sociedade de sua época. Esta peça virou filme em 1970.

Nas três peças teatrais Qorpo Santo apresenta situações bastante peculiares de conflitos sociais e que são consideradas fora de seu tempo, que, no entanto, são universais no que diz respeito a sua abrangência. Alguns temas estão presentes em toda sua obra, como a sexualidade e o erotismo, a ironia (quase machadiana, segundo Backes, no prefácio do livro) e o absurdo – situações absurdas como o nariz de cera que entorta e a orelha que cai, ou ainda o personagem Inesperto que arranca os próprios membros e atira nas moças em cena.

A imaginação de Qorpo Santo é instigante e somada à sua teimosia e genialidade, fez com que muitos acreditassem ser ele o precursor do teatro do absurdo. Quanto a isso não posso opinar. Há aqueles que concordam e outros que aceitam a genialidade do dramaturgo mas acham exagero tal afirmação. Eu, particularmente, achei as três comédias muito divertidas de ser ler, mas imagino-as muito melhor encenadas. Pelo quantidade de absurdos no texto, fica um pouco difícil de acompanhar, mesmo pra mim que já leio textos teatrais a algum tempo. Ainda assim achei o texto delicioso e muito engraçado. Muito bacana aproveitar as críticas, ironias e a grande imaginação de Qorpo Santo. Um dramaturgo que vale a pena conhecer.

As Relações Naturias: três comédias
Qorpo Santo
80 páginas
Editora Mercado Aberto
Skoob
Nota: 3/5

Esse texto faz parte do projeto de blogagem coletiva Desafio Literário 2011, proposto pelo blog Romance Gracinha. A resenha corresponde ao mês de Junho, cujo objetivo é ler uma Peça Teatral. (beeeeeeeeem atrasada!)

Confira no blog do desafio as resenhas dos outros participantes para este mês. Ou descubra quais foram as minhas escolhas.

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Confira as outras leituras feitas para o Desafio Literário 2011:

Janeiro:
Coraline, Neil Gaiman
Memórias da Emília e Peter Pan, de Monteiro Lobato

Fevereiro
Che Guevara – a vida em vermelho, de Jorge G. Castañeda
O que é isso, companheiro?, de Fernando Gabeira

Março
As Brumas De Avalon Livro 1 – A Senhora Da Magia, de Marion Zimmer Bradley
As Brumas De Avalon Livro 2 – A Grande Rainha, de Marion Zimmer Bradley

Abril
O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams
O Restaurante no Fim do Universo, de Douglas Adams
A Vida, o Universo e Tudo Mais, de Douglas Adams
Até mais, e obrigado pelos peixes!, de Douglas Adams
Praticamente Inofensiva, de Douglas Adams

Maio
A Última Trincheira, de Fábio Pannunzio
Esqueleto na lagoa verde, de Antonio Callado

Junho
Calabar – o elogio da traição, de Chico Buarque Ruy Guerra
Gota D’água, Chico Buarque e Paulo Pontes

Anarca, feminista, vegana, cat lady, bookworm, roller derby, hiperbólica, entusiasta das plantas e constante aprendiz. Rainha de paus, professora de história, amante de histórias. Meu peito é de sal de fruta fervendo num copo d'água. 🌈✊Ⓥ👩🏻‍🏫👩🏻‍💻📚🧙‍♀️🎨📿🥾🏕️ 🐈 🐈 🐈 🐈 🐈 🐈

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5 Comentários
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Ana
Ana
25 de julho de 2011 10:08 am

Sempre tive a curiosidade de ler Qorpo Santo, gostei bastante da sua resenha e principalmente em saber que as obras dele está no Domínio Público, agora não tenho mais desculpas para não ler 😉

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30 de dezembro de 2011 6:03 pm

[…] o elogio da traição, de Chico Buarque e Ruy Guerra Gota D’água, Chico Buarque e Paulo Pontes As Relações Naturias: três comédias, Qorpo […]

trackback
2 de janeiro de 2012 3:13 pm

[…] o elogio da traição, de Chico Buarque Ruy Guerra Gota D’água, Chico Buarque e Paulo Pontes As Relações Naturias: três comédias, Qorpo […]

Roberta
2 de novembro de 2017 7:52 am

Muito bom! queria conseguir ler tantos livros assim, se Deus quiser um dia vou!

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27 de setembro de 2020 3:09 pm

[…] As Relações Naturais: três comédias, Qorpo Santo […]

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